Mudanças econômicas irão refletir diretamente sobre direitos dos trabalhadores, alerta economista argentino

Economista Alejandro Tozzola integrou Ministério da Economia e da Indústria da Argentina no governo Kirchner

A volta de governos neoliberais ao poder na América Latina oferece sérios riscos à classe trabalhadora. O alerta foi dado pelo secretário de Fazenda e ex-membro do Ministério da Economia e Indústria da Argentina, Alejandro Italo Tozzola, que participou de seminários do projeto Ação Frente às Multinacionais na América Latina, realizado entre os dias 15 e 17 de março em Buenos Aires. Em entrevista ao Instituto Observatório Social, ele fala sobre as mudanças causadas pelos primeiros 100 dias do governo Macri, sobre impactos econômicos na América Latina, e sobre o risco apresentado aos direitos trabalhistas e às classes menos favorecidas.

Instituto Observatório Social: A Argentina está saindo de um governo democrático popular e entrando em um governo neoliberal. Quais os principais impactos dessa mudança para a população?
Alejandro Tozzola:
Claramente, a situação de trabalho na Argentina está em risco com as novas políticas econômicas adotadas pelo governo Macri. Mesmo antes das eleições havia esse alerta, mas provavelmente não foi toda a população que levou a sério. Há hoje um esforço em gerar um exército de reserva de trabalhadores, o que reduz a capacidade de negociação dos sindicatos, as normas da justiça do trabalho e os benefícios aos trabalhadores em geral. 

IOS: De que forma essas mudanças afetam o mercado interno argentino?
Tozzola:
No cenário econômico, foram liquidadas as retenções em todo o complexo agroexportador e baixaram o dólar em função das negociações com os fundos abutres. Essa mudança não beneficiou os produtores sem capacidade de exportação, beneficiou apenas os grandes exportadores e os grandes processadores de matéria-prima, que estão com uma rentabilidade extraordinária. É preciso entender que essa mudança tem um fim: que esse lucro extraordinário não chegue aos setores minoritários nem fiquem no mercado interno. Porque se é possível ter um preço maior no mercado externo, os produtos não serão vendidos no mercado interno.

IOS: Essas mudanças e os acordos com fundos internacionais podem levar à maior concentração de riquezas e a desigualdades sociais?
Tozzola:
Sim. No mercado interno argentino, quase 80% da riqueza anual são de consumo agregado, público e privado. Se o consumo público e o consumo privado são reduzidos, a inversão que se pretende supostamente com este acordo internacional é que a riqueza caia e se concentre. Além disso, o mundo está em depressão e não somos nós que decidimos sobre a quantidade de exportação que podemos colocar no mundo. Dependemos da demanda mundial. Mas com o mundo em depressão e com todos tentando colocar seus produtos em outros países, obviamente esse cenário não pode favorecer a ninguém. Nem à indústria, nem ao comércio, nem aos serviços dos países em geral – salvo os complexos agroexportador e financeiro. Com isso, as pessoas mais afetadas são necessariamente os trabalhadores e todos aqueles ligados ao mercado interno.

IOS: Depois de 100 dias de governo Macri, quais impactos sobre os trabalhadores mais evidentes?
Tozzola:
No momento, o ataque do governo está sobre os trabalhadores estatais. Há um entendimento difundido de que empregos públicos são postos para não se trabalhar e que sobram funcionários públicos. Então, está havendo cortes. E isso começa a afetar programas sociais, programas de acesso tecnológico para o povo, programas de acesso ao trabalho por meio de capacitação tecnológica, problemas relacionados à saúde da população mais vulnerável. Paralelamente, notam-se ações indistintas de incremento a medidas relacionadas à repressão, de uma forma de controle social. Vivemos isso na Argentina durante a ditadura militar e em alguns períodos da década de 1990 e em 2001, períodos que acabaram de forma desastrosa.

IOS: Esse resultado tem alguma relação com a pressão exercida pelas multinacionais?
Tozzola:
Está claro que em toda a América do Sul, as transnacionais buscam forçar os países a entrar em tratados transpacíficos e transatlânticos, que também são impostos pelos EUA. Esses acordos têm apoio de transnacionais e do setor financeiro de todo o mundo. É uma economia transcorporativa de nível mundial, que tem uma clara lógica de poder para controlar todas as políticas e todos os processos políticos na América Latina. Esse é um projeto que está circunscrevendo os países mais importantes da região, como o Brasil, que pode decidir na balança se isso se converte em um eixo estrutural ou em um eixo conjuntural.

Crédito da Foto: 
Divulgação/IOS
Data e hora: 
23/03/2016 11:15 2016