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ER6 - trabalho escravo

 

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Atualização:
Siderúrgicas firmam carta-compromisso contra trabalho escravo (13.08.2004)

 

 


Escravos do aço

Siderúrgicas se beneficiam de trabalho
escravo em carvoarias na selva amazônica


Dauro Veras e Marques Casara
Fotos Sérgio Vignes



Carvoaria na região de Açailândia (MA)

Esta é a ponta inicial de uma cadeia de produção que envolve, com diversos graus de responsabilidade, gigantes industriais. Empresas controladas pelos grupos Queiroz Galvão e Gerdau são acusadas pelo Ministério Público Federal de se beneficiarem da escravidão para produzir ferro gusa. A Companhia Vale do Rio Doce e a maior produtora de aço dos Estados Unidos, Nucor Corporation, relacionam-se comercialmente com essas empresas. Uma atividade econômica bilionária tem em sua base a violação dos direitos humanos.

A Amazônia brasileira produz o melhor ferro gusa do mundo, usado principalmente na produção de peças automotivas. É um mercado que movimenta 400 milhões de dólares anuais somente na região Norte - 2,2 milhões de toneladas/ano - e tem como principal compradora a indústria siderúrgica dos Estados Unidos. Esse gusa alimenta um mercado de alta tecnologia, o dos aços especiais. A produção, contudo, tem na base de sua cadeia de valor uma das piores formas de exploração humana: o trabalho escravo, que acontece em carvoarias localizadas na floresta amazônica.

Vivem lá homens que perderam a liberdade, não recebem salários, dormem em currais, comem como animais, não têm assistência médica e, em muitos casos, são vigiados por pistoleiros autorizados a matar quem tentar fugir. Esses trabalhadores, em sua maioria, não sabem ler nem escrever. Em geral, esqueceram a data do aniversário. Têm dificuldades de se expressar, sentem medo, vivem acuados e não gostam de falar sobre si mesmos. Quase sempre, não possuem carteira de identidade nem título de eleitor. São como fantasmas, com futuro incerto.

As carvoarias da Amazônia são controladas por 13 siderúrgicas com sede no Maranhão e no Pará. Algumas siderúrgicas são de propriedade de gigantes da economia, com atuação em quase todo o território brasileiro e também no exterior. O grupo Queiroz Galvão é dono da Simasa e da Pindaré. O grupo Gerdau controla a Margusa. Simasa e Margusa são acusadas pelo Ministério Público do Trabalho de usarem mão-de-obra escrava em carvoarias ilegais. Esse carvão é usado na produção do ferro gusa exportado aos Estados Unidos para a produção de aço, que por sua vez é matéria prima de automóveis e diversos outros produtos.

A Vale do Rio Doce e a Nucor não estão sendo acusadas de envolvimento direto com o trabalho escravo. Contudo, fazem negócios comerciais com empresas envolvidas na exploração de trabalho escravo. A sociedade, a Constituição brasileira, normas internacionais e até os princípios de responsabilidade social empresarial, como se pode ler mais adiante, não admitem o uso de escravidão em nenhum elo da cadeia produtiva.

Contexto global

Para produzir gusa é preciso utilizar, principalmente, carvão e minério de ferro. O carvão vem de milhares de pequenas carvoarias que queimam madeira da floresta nativa. O minério é fornecido pela Companhia Vale do Rio Doce, que também fornece a logística necessária para a exportação do gusa produzido por Simasa e Margusa: uma ferrovia e o terminal portuário de sua propriedade no litoral do Maranhão.

O principal comprador do ferro gusa que tem na sua cadeia de produção o trabalho escravo é a Nucor Corporation, maior produtora de aço dos Estados Unidos. Essa corporação usa o ferro gusa para produzir insumos que abastecem a maioria das indústrias automotivas americanas. Carros norte-americanos, de diversas marcas, saem da linha de produção montados com aços especiais que tiveram trabalhadores escravizados no primeiro elo da cadeia produtiva.

Nucor e Vale do Rio Doce são sócias no projeto de uma siderúrgica de ferro gusa, que também será instalada na região Norte. Terá capacidade de produzir, segundo informações divulgadas pela Nucor, 380 mil toneladas de ferro gusa por ano, com possibilidade de dobrar esse volume no futuro. A Nucor diz que esse ferro será produzido de forma não agressiva ao meio ambiente, com carvão proveniente de madeira de reflorestamento.

O interesse das siderúrgicas pela Amazônia acontece porque a região tem imensas reservas minerais e é muito atraente para quem busca produzir a baixo custo: tem mão-de-obra barata e madeira em abundância. Em alguns casos, essa mão-de-obra não custa praticamente nada. A madeira sai da floresta quase de graça, muitas vezes retirada ilegalmente e sem autorização dos órgãos ambientais. Some-se a isso a brutal concorrência comercial entre as empresas em escala global e tem-se um quadro de pressões crescentes sobre o meio ambiente e as condições de trabalho.

A indústria brasileira, segundo reportagem do New York Times ("Brasil quer se tornar gigante mundial na produção de aço", 21/05/2004), está se mobilizando para atender a demanda da China por aço e pretende investir bilhões de dólares para aumentar a capacidade produtiva em mais de 30% nos próximos quatro anos. O jornal americano refere-se ao Brasil como "afortunado" ao relacionar três aspectos que levam o país a buscar protagonismo na indústria global do aço: matéria-prima abundante, excelência tecnológica e mão-de-obra barata.

Na mesma reportagem, o diretor-executivo de planejamento estratégico da Vale do Rio Doce, Gabriel Stoliar, comenta: "O que estamos presenciando é uma enorme janela de oportunidade para o crescimento da indústria siderúrgica brasileira, e de forma grandiosa. Mas não podemos perder tempo. O momento para investir é agora, de forma que possamos garantir o nosso lugar no mundo". O presidente do grupo Gerdau, Jorge Gerdau Johannpeter, afirma que o Brasil é particularmente importante para os chineses devido ao minério de ferro.

O que não se comenta é que uma das supostas vantagens estratégicas do Brasil, a mão-de-obra barata, é obtida em parte com exploração do trabalho degradante e escravo.

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English Version

 

Reportagem jornalística "Escravos do Aço", de Dauro Veras e Marques Casara, publicada na edição #6 da publicação Observatório Social Em Revista, do Instituto Observatório Social (junho de 2004).

 

Junho de 2004

Florianópolis-SC, Brasil

Uma publicação do Observatório Social