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Escravos do aço
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Escravos do aço
Atuação ineficiente
Até
há pouco tempo, as carvoarias não faziam distinção
entre usar adultos e crianças. Atualmente as siderúrgicas
entram em pânico quando ouvem falar em menores de 18 anos
nas frentes de trabalho. A Simasa, inclusive, detém o selo
Empresa Amiga da Criança, concedido pela Fundação
Abrinq, uma conceituada organização não governamental.
Ao ser questionado sobre a contradição
de ter o selo da Abrinq e ser acusada de envolvimento com trabalho
escravo, o gerente administrativo da Simasa, Marcelo Almeida, respondeu:
"Nós não temos conhecimento de que os trabalhadores
das carvoarias vivem nessas condições". Segundo
ele, a Simasa não tem nada a ver com o que acontece nesses
lugares: "Apenas compramos o carvão. Eles são
fornecedores de matéria-prima e essa é a única
relação que temos com essas carvoarias". Posteriormente,
um dos diretores da Queiroz Galvão e diretor-presidente da
Simasa, André de Oliveira Câncio, admitiu a existência
dos problemas na cadeia produtiva e prometeu soluções.
As afirmações de Almeida
não batem com as normas que a Simasa precisou seguir para
conquistar o selo da Abrinq. O selo assegura a inexistência
de trabalho infantil em todos os elos da cadeia produtiva, mas não
fixa regras para o trabalho escravo. Os próprios trabalhadores
contam que os fiscais das siderúrgicas percorrem as carvoarias
para verificar a existência de crianças. "Se
encontram uma criança, mesmo que seja o filho da cozinheira,
não levam mais carvão", disse um carvoeiro durante
uma inspeção do Grupo Móvel em junho, quando
a Simasa foi novamente autuada. Ou seja, existe fiscalização
seletiva e pontual por parte da siderúrgica. Os fiscais das
empresas, como informam dezenas de relatórios do Grupo Móvel,
fecham os olhos para o trabalho escravo, para as péssimas
condições sanitárias e se limitam a checar
se não existem crianças.

A alegação de que as
carvoarias são apenas fornecedoras e não têm
nada a ver com a siderúrgica não é aceita pelo
Ministério Público do Trabalho nem pelo Ministério
do Trabalho. Os órgãos entendem que as siderúrgicas
são diretamente responsáveis por tudo o que acontece
nesses locais. Isso porque são elas que constróem
os fornos usados na queima da madeira que produz o carvão.
As siderúrgicas também exigem exclusividade na entrega
do carvão. "Se por acaso souberem que entregamos para
outro, eles vêm aqui e derrubam os fornos", explicou
outro carvoeiro.
Relatório
Em seu relatório de março,
o procurador Luercy Lino Lopes escreveu que toda a produção
de carvão é feita no exclusivo interesse de usinas
siderúrgicas da região. De acordo com Lopes, são
as usinas que viabilizam a instalação dos fornos,
financiando os recursos para sua construção e para
a construção de alojamentos - que, normalmente, nem
chegam a ser feitos. Em outro ponto do documento, ele escreve:
"As usinas se utilizam de terceiros,
pessoas sem nenhuma idoneidade econômico-financeira para fazer
frente ao empreendimento (quase sempre trabalhadores carvoeiros
mesmo), que, para todos os efeitos, são guindados à
condição de 'empregadores' dos trabalhadores e 'donos'
das carvoarias. Meros intermediários ou 'testas-de-ferro',
segundo pude perceber claramente".
São as siderúrgicas que
pagam as multas impostas pelo Ministério do Trabalho e não
as carvoarias. Em relação ao transporte entre carvoarias
e usinas, ele não é feito em caminhões das
siderúrgicas, mas em veículos de propriedade dos administradores
das carvoarias. O serviço é uma das piores atividades
na frente de trabalho, pois os carregadores precisam subir rampas
íngremes com sacas de mais de 50 quilos.
Empresas
As empresas responderam de diferentes maneiras sobre a denúncia
de terem mão-de-obra escrava na cadeia produtiva (leia aqui
a íntegra das respostas). A Gerdau
enviou uma nota por e-mail, através da assessoria de comunicação,
informando que as violações foram praticadas por prestadoras
de serviços (carvoarias) e que ela se considera apenas parcialmente
responsável pelo problema.
A Queiroz Galvão, por meio do diretor-presidente da Simasa,
André de Oliveira Câncio, adotou uma atitude inovadora,
que não é muito comum por parte das corporações:
admitiu o problema e prometeu diversas ações até
o final do ano para evitar novas autuações. No Brasil,
a tradição de muitas empresas é isentar-se
da responsabilidade - repassando-a aos fornecedores -, tratar o
problema como incidente isolado e desqualificar quem fez a queixa.
A Vale do Rio Doce respondeu que vende minério de ferro
e logística às siderúrgicas pelas necessidades
do mercado, pois é a única fornecedora dessa matéria-prima
no Brasil. Também ressaltou que participará de uma
campanha, em parceria com o Tribunal Superior do Trabalho, contra
o uso de mão-de-obra escrava, o que reforça sua postura
em relação à responsabilidade social. O gerente
de relações com a imprensa da Vale, Fernando Thompson,
considera extremamente importante iniciativas que desvendem a cadeia
produtiva do trabalho escravo.
A Nucor, por meio de seu vice-presidente executivo John Ferriola,
afirmou que não compra ferro gusa diretamente das empresas
mencionadas na reportagem. Disse ainda não ter conhecimento
das acusações e rejeitar o uso de trabalho escravo.
Segundo Ferriola, o preço que a empresa paga pelo ferro gusa
brasileiro é competitivo com todas as outras fontes localizadas
em diversos países.


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Reportagem jornalística
"Escravos do Aço", de Dauro Veras e Marques Casara,
publicada na edição #6 da publicação
Observatório Social Em Revista, do Instituto Observatório
Social (junho de 2004).
Junho de 2004
Florianópolis-SC, Brasil
Uma publicação do Observatório
Social
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