ALTERNATIVA SAUDÁVEL

Enquanto nas grandes propriedades cresce a dependência dos transgênicos, os pequenos agricultores se voltam para o cultivo de orgânicos

Embora tenha nascido no campo, Aparício Ortis se considera agricultor há apenas 14 anos. A vida no interior sempre lhe obrigou a mudanças constantes, a cada fim de contrato de arrendamento. Casou, teve filhos e formou família em meio às safras de fumo, aos tonéis de veneno que lhe tomavam o espaço da casa, a saúde do corpo e a coragem de continuar no campo. Até que em 2001, uma oportunidade de financiamento lhe permitiu a compra de um pequeno terreno em Saltinho, município de quatro mil habitantes no extremo oeste catarinense, suficiente para um novo começo.

“O lucro das grandes colheitas não fica mais com o agricultor, fica pra empresa que vendeu o adubo, a uréia, as sementes, o veneno, as horas de máquina, o frete. O ganho do trabalho é pouco, o gasto é muito”, afirma. “Mas no ano 2000 eu consegui comprar esse pedaço de terra e aprendi a cultivar de verdade. Hoje vivo em contato com a natureza, produzindo alimento de verdade, saudável para nosso consumo e que leva saúde para as pessoas.”

O agricultor, hoje com 61 anos, faz parte de um movimento cada vez maior no campo, de pequenos produtores que decidem voltar às origens do campesinato. Em pequenas propriedades, cultivam tudo o que a terra pode oferecer, no tempo que ela exige. Assim, garantem independência desde a aquisição das sementes, na produção de adubos, no controle de pragas, até a reserva para a próxima safra e a venda do produto para o mercado. Nessas propriedades, não entram agrotóxicos nem sementes modificadas geneticamente.


Aparício Ortis

Há 14 anos, o agricultor Aparício Ortis trocou a plantação de fumo pelo plantio de alimentos orgânicos em Saltinho (SC)

Dados do Censo Agropecuário 2006 mostram que, de todas as propriedades de até 10 hectares no Brasil, 27% utilizam algum tipo de agrotóxico. Apesar de ser um número baixo quando comparado à utilização majoritária nas grandes propriedades, o percentual apresenta um desafio para os representantes do setor. “A produção da agricultura familiar no Brasil precisa ser cada vez mais feita de forma agroecológica. Isso é uma questão de saúde pública”, afirma a representante da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), Carmen Foro. “Para isso, precisamos ter políticas de Estado que fomentem uma produção sem uso de agrotóxicos. E precisamos que o Governo proíba em definitivo o uso de agrotóxicos banidos em vários países, mas que continuam em uso no Brasil. E isso vai além dos pequenos agricultores, precisa ser aplicado em toda a agricultura brasileira”, reforça.

Além do abandono do agrotóxico, os pequenos agricultores reforçam a autonomia investindo no resgate e na manutenção de espécies livres de manipulação genética, melhoradas naturalmente ao longo das safras – as chamadas sementes crioulas. “A partir do trabalho com as sementes crioulas, podemos construir essa alternativa que garante mais disponibilidade de alimentos, com maior diversidade e com plantas que estão adaptadas à realidade regional”, afirma o agricultor e membro da coordenação nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Gilberto Schneider. “Entendemos que a soberania alimentar é o direito dos povos escolherem o que produzir, o que consumir, e de que forma se dá isso”, completa.

Neste modelo de campesinato, o cultivo agroecológico é somado à produção das próprias sementes. “Temos a agroecologia como modo de ser, de viver e de produzir. Sem as sementes, que são a base da produção, não é possível a agroecologia. Também não é possível alcançarmos a soberania alimentar. São eixos bem interligados”, destaca.

Além da relação estreita com o meio ambiente, a agroecologia promove o senso de responsabilidade, por parte dos produtores, em toda a cadeia produtiva – desde o manejo e o convívio com insetos considerados pragas em grandes lavouras até a entrega dos alimentos ao consumidor final. “Quando o agricultor percebe a importância de ser o dono da própria semente e de sair do modelo do agronegócio, ele é convencido, principalmente pela qualidade dos alimentos que produz”, reforça o coordenador da Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (Fetraf) em Santa Catarina, Alexandre Bergamin. “A partir daí, a resposta é muito positiva, porque o produtor começa a mudar a lógica de toda a sua propriedade e todas as culturas começam a caminhar pro lado da autonomia e da agroecologia”, completa.



Pequenos, mas representativos

Compilações de estudos feitas pela Via Campesina e pela ONG internacional Grain revelam que 92% de todas as unidades mundiais de produção pertencem a camponeses. Mesmo sendo a maioria das propriedades, elas ocupam apenas 24% das terras cultivadas. “Apesar do pouco acesso, temos diversidade de produção. Cerca de 70% dos alimentos que vão para a mesa da população mundial são produzidos nessas unidades camponesas”, ressalta Schneider.

Há nove anos, a agricultora Maria Triaca, de Palmitos, distante 612 quilômetros de Florianópolis, abandonou a agricultura tradicional, optou pela agricultura agroecológica e pela autonomia na produção de tudo o que é consumido na casa da família. Hoje, ela é uma das responsáveis por manter e multiplicar as sementes crioulas na região. Assim, trocou o monocultivo de milho pela produção diversificada de milho, soja, tremoço, linhaça, trigo, gergelim, alface, cenoura, cebola, beterraba, repolho, batata, alho e aveia.

“Tudo isso eu produzo em casa, sem uma gota de veneno”, afirma, orgulhosa. “Gasto muito pouco no supermercado e eu sei o que vai na mesa para minha família. Deixei o veneno de lado e agora o que eu deixo pra minha família é vida e saúde.”


Gilberto Schneider

“Soberania alimentar é o direito de escolher o que produzir, o que consumir e de que forma se dá isso”, defende Gilberto Schneider, do MPA

Uma ilha de agroecologia

Mesmo onde o ambiente não parece favorável, a agroecologia tem se destacado. Cercada por quilômetros de cana, soja e pastagens às margens do Pantantal Matogrossense, 25 famílias cultivam terras de reforma agrária sem aplicação de nenhum produto químico no estado que é o campeão mundial de consumo de agrotóxicos.

“A agroecologia, pra nós, é muito mais que um conjunto de práticas agrícolas. Pra nós, ela é uma perspectiva de produção, com técnicas que precisam ser aprimoradas e difundidas”, defende a coordenadora do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra em Mato Grosso (MST-MT), Lucineia Freitas. “No caminho que a gente está seguindo com o agronegócio, a terra não vai aguentar. E como a gente precisa da terra em 100% da nossa vida, é preciso mudar.”

Embora ainda seja um desafio, inclusive para os pequenos agricultores, o abandono das técnicas mais intensivas de produção, pequenas ilhas agroecológicas começam a surgir em meio aos latifúndios. A 300 quilômetros de Cuiabá, na cidade de Mirassol d’Oeste, o MST tem um dos melhores exemplos de bom uso da terra no país

São 331 famílias morando no assentamento Roseli Nunes. No meio de todas elas, 25 dedicam-se ao cultivo de hortaliças de maneira agroecológica. Junto com famílias de assentamentos vizinhos, elas fundaram uma associação que atende a cerca de 7 mil alunos na região por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

“É uma alegria imensa saber que aquelas crianças estão se alimentando com coisas saudáveis”, afirma a agricultora presidente da Associação Regional de Produtores Agroecológicos (ARPA), Claudineia de Souza. “Aqui, as merendeiras são capacitadas e preparam os alimentos de verdade. E nossas crianças comem verdura, almeirão, rúcula, berinjela”, enumera.

As plantações garantem a subsistência das famílias e, com o fornecimento para os programas, elas conseguem uma renda de até R$ 28 mil ao ano. “Não dá pra ficar rico, mas dá pra viver com dignidade”, comemora o agricultor Nerio de Souza, um dos primeiros a chegar no assentamento. “Antes a gente achava que não tinha como produzir sem veneno. Mas aí, a gente começou a viver com a natureza, a recuperar as áreas, a dar equilibro, e hoje não precisa nem mesmo de agrotóxico. Dá pra produzir, e pra produzir muito bem”, defende.