ARTIGOS

GLOBALIZAR E GARANTIR DIREITOS

Por Antonio Lisboa, secretário nacional de Relações Internacionais da Central Única dos Trabalhadores


Antonio Lisboa

Vivemos hoje o impacto de décadas de mudanças econômicas que transformaram pequenas indústrias em grandes conglomerados transnacionais. As empresas ganharam novos mercados e passaram a ampliar suas cadeias produtivas para países onde a falta de garantia dos direitos trabalhistas gera salários inferiores, assim como condições degradantes de trabalho.

Vemos, nesse cenário, uma articulação das companhias multinacionais com governos em busca de reduzir, ao máximo, os direitos dos trabalhadores. E, nessa pauta de articulação, o direito a greve é tema constante.

Proibir que trabalhadores e trabalhadoras façam greve é algo completamente anacrônico e profundamente anti-democrático. Derrubar este direito sabotaria a capacidade de reação da força de trabalho, condição fundamental para a obtenção de um equilíbrio mínimo com o poder econômico em uma sociedade absurdamente desigual.

O direito de greve é um direito humano. Está reconhecido na Convenção 84 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e inscrito nas constituições de quase uma centena de países. É uma forma de o cidadão somar esforços e, de forma consciente e coletiva, dizer não à injustiça da qual está sendo vítima, tentando buscar, organizadamente, sua reparação.

As primeiras greves da história moderna foram a materialização da luta para conter uma engrenagem que ceifava vidas – de crianças, inclusive, mutiladas e corroídas por longas e estafantes jornadas de trabalho. Foi uma reação contrária a um sistema alavancado por lucros gerados com a superexploração da mão de obra em épocas onde não existiam descanso semanal, férias e aposentadoria.

Hoje, embora tenhamos avançado na garantia de direitos, os motivos de greve não diferem muito dos que foram registrados ao longo da história. Neste embate político e ideológico contra o loby internacional das corporações multinacionais, cabe às lideranças sindicais determinar quais os serviços essenciais que devem ser mantidos, ainda que parcialmente, para que a população, principalmente a mais pobre, não seja prejudicada. Precisamos conjugar responsabilidade com sensibilidade, tendo em conta sempre que é preciso ganhar a sociedade, conscientizar e mobilizar as pessoas para a nossa causa.

Defendo a regulamentação do direito de greve dentro do princípio de que toda e qualquer categoria pode erguer a cabeça, levantar a voz e dizer não. O que fazer quando se esgotam todas as possibilidades de diálogo, quando se fecham as portas da negociação? Ninguém está condenado a dizer amém indefinidamente.