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SOBERANIA ALIMENTAR DA TERRA AO PRATO

Por Siderlei Oliveira, presidente da Confederação Brasileira Democrática dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação da CUT (Contac/CUT)


Siderlei Oliveira

No ramo da alimentação, temos a consciência de que nossas cadeias produtivas não começam nas fábricas. O produto que é entregue industrializado começa muito antes de ser plantado e colhido. Começa na produção da semente e nos interesses que existem nessa produção.

Hoje, menos de 10 multinacionais controlam as grandes lavouras de todo o mundo. Além das sementes transgênicas, produzem agrotóxicos e adubos químicos e, muitas vezes, compram a produção dos monocultivos, como soja e milho, para processar e transformar em ração animal. Nessas grandes plantações, a menor parte é destinada para a alimentação humana. Mesmo assim, o que chega compromete a saúde ao longo de toda a cadeia, desde quem planta até quem colhe, quem beneficia e quem consome.

Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) apontam que, até 2050, seremos 9 bilhões de pessoas no mundo. Alguns países, com tradição de produção em grandes quantidades, acabam sendo a esperança para que não morramos de fome. O Brasil é um deles. E assume esse posto com uma expectativa enorme: responder por 40% do crescimento na produção de alimentos em todo o mundo até a metade do século.

Diante desta responsabilidade, não preocupa apenas a possibilidade da fome imperar sobre os menos favorecidos. Preocupa também a qualidade dos alimentos que serão entregues à população. Queremos entregar alimentos cheios de agrotóxicos? Queremos nos manter no topo do ranking mundial de consumidores de veneno, com mais de cinco quilos por habitante por ano?

Será que queremos plantar soja e milho a custo de royalties? Queremos que mais de dois terços da nossa produção de milho e soja seja transformado em ração para alimentar a pecuária europeia? Onde fica nossa soberania nessa história?

Precisamos olhar para as lavouras brasileiras com mais atenção. Temos grandes latifúndios que consomem nossa água, nosso solo, poluem nosso meio ambiente e, no final, não deixam nem lucro nem alimento. Até quando entregaremos nossas riquezas às multinacionais? Até quando vamos deixar nosso povo com comida sem qualidade?

Nós, trabalhadores da alimentação, precisamos nos unir com os trabalhadores do campo. Precisamos assumir o compromisso também no nosso elo da cadeia produtiva e garantir que o alimento que é processado saia da fábrica com qualidade para a população. A qualidade nos alimentos tem que ir da terra até o prato do consumidor. Afinal, fazemos parte da mesma cadeia produtiva.