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Até 1900, as poucas usinas instaladas no Brasil eram de pequeno porte, somando 12 MW, e de origem predominantemente térmica. O aproveitamento do enorme potencial hidrelétrico do país ganharia impulso com a chegada da Light, no começo do século XX. Em junho de 1897, o italiano Francesco Antonio Gualco, residente no Canadá, e o comendador Antônio Augusto de Souza, sogro do político paulista Carlos de Campos, obtiveram da Câmara Municipal de São Paulo a concessão para explorar o serviço de transporte urbano em bondes elétricos.

No mesmo ano, o engenheiro e capitalista norte-americano Fredrick Pearson, em visita a capital paulista, que experimentava enorme processo de expansão urbana, percebeu o potencial de negócio que representava a instalação das linhas de bondes por tração elétrica naquela cidade. De volta aos Estados Unidos, Pearson estabeleceu os primeiros contatos com Gualco e passou a buscar financiamento para o projeto. Em dezembro de 1898, Gualco e o comendador Souza receberam autorização da Câmara para ampliar a concessão original, permitindo a instalação de novas linhas de bonde, além de uma segunda concessão, por meio da qual poderiam atuar também no campo da geração e da distribuição de energia elétrica.

Em abril de 1899, por iniciativa de Pearson e de um grupo de empresários canadenses, constituiu-se em Toronto, no Canadá, a São Paulo Railway, Light and Power Company Limited. A nova empresa pretendia, além da produção, utilização e venda de eletricidade, o estabelecimento de linhas férreas, telegráficas e telefônicas. Para estudar os problemas jurídicos atinentes aos decretos das concessões, foi enviado ao Brasil o advogado Alexander Mackenzie. Cerca de cinco meses após a constituição da empresa, Gualco e o comendador Soares transferiram suas concessões para o grupo canadense. Em seguida, a razão social da companhia foi alterada para São Paulo Tramway, Light and Power Company Limited, devido à existência da São Paulo Railway Company, empresa inglesa que operava a ferrovia São Paulo – Jundiaí.

Relatório Geral do estudo
Relatório Executivo do estudo


Dessa forma a companhia desistiu de operar no setor de estradas de ferro, restringindo-se ao transporte urbano. O acelerado crescimento da cidade de São Paulo, resultante da expansão do complexo exportador cafeeiro, oferecia, à época, interessantes oportunidades de investimento às duas principais atividades da Light: o transporte coletivo e a geração e a distribuição de energia elétrica. O primeiro estava a cargo da Companhia Viação Paulista, com bondes de tração animal, e as outras duas estavam a cargo da Companhia de Água e Luz do Estado de São Paulo, que operava uma usina a vapor, situada no centro da capital. A disputa com essas empresas, ambas de capital nacional, não demorou a acontecer.

Com recursos técnicos e financeiros de grande monta, a Light, em pouco mais de um ano, já havia comprado a Viação Paulista e detinha o controle acionário da Força e Luz. Antes mesmo da compra da Viação Paulista, a Light inaugurara, em maio de 1900, a primeira linha de bondes elétricos de São Paulo, ligando o bairro da Barra Funda ao centro da cidade. Outras cinco linhas foram inauguradas em 1901. A energia era produzida por uma usina a vapor, inaugurada no final de 1899, na rua São Caetano. Para cumprir suas metas de ampliação dos serviços, a Light deu início, em janeiro de 1900, às obras para a construção da usina hidrelétrica de Paranaíba, localizada na Cachoeira do Inferno, no rio Tietê.

Inaugurada em setembro de 1901, com 2 MW, esta foi a primeira hidrelétrica da Light no Brasil. A energia produzida nessa usina atendia às necessidades da rede de transportes urbanos e da iluminação. Entretanto, com a expansão desses serviços, a companhia foi obrigada a realizar ampliações sucessivas da capacidade geradora da usina, que em 1912 atingiu 16 MW. No decorrer da década de 1910, aumentou o número de estabelecimentos comerciais e teve continuidade a substituição do vapor pela energia elétrica nas fábricas do estado e no restante do país.

A essa altura, a intervenção do grupo Light no Brasil já não se limitava ao estado de São Paulo. Em 1905, a Light iniciou sua penetração no Rio de Janeiro, então capital da República. Em junho de 1904, constituiu-se, no Canadá, a Rio de Janeiro Tramway, Light and Power Company, que tinha como procuradores no Brasil Alexander Mackenzie e Frederick Pearson. Em janeiro de 1905, Mackenzie adquiriu uma concessão para fornecimento de energia elétrica gerada por força hidráulica ao perímetro urbano do Distrito Federal; em março assinou um acordo com o governo do estado do Rio de Janeiro para a exploração industrial da força hidráulica do ribeirão das Lajes e do rio Paraíba do Sul. Em dezembro do mesmo ano, a Light iniciou a construção da usina de Fontes, no ribeirão das Lajes, no município de Piraí. Em junho de 1909, com 24 MW, Fontes passou a ser a maior usina do Brasil e uma das maiores do mundo. Em pouco tempo, a Light monopolizaria os serviços de iluminação elétrica e fornecimento de gás, bondes e telefonia do Rio de Janeiro.

A terceira empresa do grupo Light a ser instalada no Brasil foi a São Paulo Electric Company Limited, criada no início da década de 1910 para suprir as crescentes dificuldades que a São Paulo Light vinha enfrentando para atender ao rápido crescimento do consumo de eletricidade no estado. Esgotadas as possibilidades de ampliação da usina de Parnaíba, restava a construção de uma nova hidrelétrica. A companhia optou, então, pelo aproveitamento do Salto de Itupararanga, no rio Sorocaba. Para viabilizar o empreendimento, constituiu-se a São Paulo Electric, também com sede em Toronto. Por intermédio dessa nova empresa, a Light ultrapassou os limites da capital e começou a estender seu raio de ação pelo interior do estado.

Convém notar que o grupo Light, assim como outras empresas que atuavam na América Latina, era apenas nominalmente canadense, e os capitalistas que detinham seu controle eram, em parte, naturais dos Estados Unidos, sendo seus métodos de gestão e financiamento marcadamente norte-americanos. O capital investido na companhia passou, em pouco tempo, a ser majoritariamente de origem norte-americana. Estreitamente vinculada aos grandes bancos de negócios, a Light era parte integrante de um vasto conglomerado financeiro e industrial, cujos investimentos estendiam-se também ao México e a Cuba. No decorrer das décadas de 10 e 20, o grupo consolidaria sua presença no eixo Rio – São Paulo, o mais dinâmico da economia brasileira, absorvendo empresas pré-existentes.

A São Paulo Light se voltaria para a compra de concessionárias que produziam e distribuíam energia em cidades vizinhas a São Paulo e em municípios paulistas localizados no vale do Paraíba. O processo de concentração realizado pela companhia foi rápido: em apenas dois anos – 1927 e 1928 – incorporou oito empresas. Movimento semelhante, embora em menor escala, verificou-se na Rio Light, relativamente às pequenas concessionárias do mesmo vale do Paraíba. Esse movimento de incorporações - promovido não só pela Light, mas também pela norte-americana Amforp, que se instalou no interior paulista e em importantes capitais do Nordeste e do Sudeste - determinou profundas alterações no quadro do setor de energia elétrica no Brasil, que passou a caracterizar-se pela presença predominante do capital estrangeiro.

Esse quadro manteve-se sem grandes modificações até o começo dos anos 60. Em janeiro de 1979, o governo brasileiro adquiriu as ações da Light ao grupo canadense Brazilian Traction Light and Power and Company - Brascan Limited, que desde 1956 respondia pelas empresas do grupo no país. A compra da Light marcou a conclusão do processo de nacionalização do setor de energia elétrica, iniciado em 1961 com a aprovação da lei que criou a Eletrobrás, consagrando a adoção da solução estatizante para o setor. A aquisição da companhia pelo governo federal foi decidida em dezembro de 1978, encerrando um longo processo de negociações que envolveu o governo brasileiro, a Brascan e grupos privados nacionais.

Em 1975, a Brascan havia comunicado às autoridades do governo a disposição de negociar a companhia, alegando dificuldades para obter os financiamentos indispensáveis ao seu plano de expansão. No ano seguinte, um grupo de grandes empresários nacionais propôs a compra da Light por 680 milhões de dólares, sob a garantia do Tesouro Nacional. O governo rejeitou a proposta, alegando falta de garantias efetivas para o programa de investimentos da empresa. Em 1977, a Companhia Força e Luz Cataguases Leopoldina se interessou pela compra da Light, oferecendo 300 milhões de dólares, sob a garantia do American Express Bank, o que a faria dispensar o aval do Tesouro.

O governo federal mais uma vez vetou a proposta, desta vez questionando a capacidade técnica e financeira da Cataguases para assumir uma empresa do porte da Light. Por fim, em 1978, ainda durante a vigência do regime militar, o governo optou pela estatização da companhia. Em 28 de dezembro, o presidente Ernesto Geisel, sem prévia audiência do Congresso, aprovou a compra da Light pelo governo federal nos termos propostos por uma exposição de motivos assinada pelos ministros Shigeaki Ueki, das Minas e Energia, Mário Henrique Simonsen, da Fazenda, e Élcio Costa Couto, interino do Planejamento.

O negócio entre a Brascan e o governo brasileiro consumou-se em janeiro de 1979, quando a holding canadense vendeu ao governo brasileiro sua participação na Light (83% das ações), por US$ 436 milhões, incluindo o imposto de renda devido pela concessionária. O negócio importou no pagamento líquido de 380 milhões de dólares, dos quais 210 milhões à vista e o restante no prazo de três meses. Entretanto, o passivo da empresa assumido pelo governo chegava a US$ 778 milhões, referentes, em grande parte, a empréstimos externos tomados nos dois últimos anos com o aval da União.

A compra da Light suscitou inúmeras críticas concernentes ao alto valor da operação e a questões como o término do contrato de concessão na área do Rio de Janeiro em 1990, que implicava a reversão gratuita do acervo da companhia para a União. A justificativa oficial para a compra era a de que esta se fazia necessária, pois só tendo o governo como mediador a empresa conseguiria os empréstimos externos necessários aos investimentos na expansão de seus sistemas. Sem isso, o próprio desenvolvimento industrial das cidades do eixo Rio – São Paulo estaria em risco.

Assim, a Light passou a integrar o grupo de empresas controladas pela Eletrobrás. Em março de 1981, a Eletropaulo, empresa criada pelo governo paulista, assumiu os serviços da Light em São Paulo. A Light Rio permaneceu sob controle da holding estatal até ser novamente transferida ao controle do capital privado, em 1996. Em 2003 o faturamento da empresa no Brasil foi de US$ 1.934,0 milhões. A Light empregou 3.649 trabalhadores. Fonte: OBSERVATÓRIO SOCIAL, Estudo sobre o comportamento social e trabalhista da Light. Relatório. Florianópolis, 2001.

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