Carta de Maria

Oi, eu sou Maria, como muitas outras Marias, sou mais uma a lutar por minha família e condições dignas de trabalho.

Como tantas outras marias, sou mais uma que, antes do sol nascer, engole o aperto no coração e retira o filho da cama, ainda dormindo. Coloco ele nos ombros e levo até a creche onde passa o dia enquanto eu trabalho. O cuidado com nosso pequeno ficou restrito a mim porque o meu companheiro, se assim posso chama-lo, nem sei onde está hoje. Então, eu sempre peço proteção, aperto o passo e redobro minha força para mais um dia de batalha pelo sustento da nossa família.
Coloco ele nos ombros e levo até a creche onde passa o dia enquanto eu trabalho. O cuidado com nosso pequeno ficou restrito a mim porque o meu companheiro, se assim posso chama-lo, nem sei onde está hoje.
Então, eu sempre peço proteção, aperto o passo e redobro minha força para mais um dia de batalha pelo sustento da nossa família.
Quem entende a trabalhadora é só a outra trabalhadora, não tem jeito, somos mulheres, de todas as raças, casadas, solteiras, separadas. Somos hetero, homossexuais, trans, lésbicas.
Somos arrimo de família. Como dizem por aí, nós somos 85% da mão de obra no setor de serviços e sentimos na pele o que é ser jornalista, bancária, comerciária, operadora de telemarketing, trabalhadora no asseio e conservação, camareira, recepcionista, auxiliar de serviços gerais entre tantas outras funções.
Para nós, trabalhar no setor de serviços é conviver com a rotatividade, com menores salários, mais emprego intermitente, aquele em que a gente só recebe pela hora trabalhada mesmo estando à disposição o dia todo.
Nas profissões onde estamos sempre às condições são piores. E vamos combinar que nossa luta é em dobro, pois além do trabalho na empresa, temos o cuidado com a casa,com filhos, temos a dupla e tripla jornada. Minha infância não foi fácil.
Aos 8 eu era doméstica, aos 12 vendia as quentinhas que minha mãe fazia, aos 16 já trabalhava 8 horas por dia. Sem registro, claro. Mas nunca deixei de estudar, porque dona Ana sempre fez questão de que os filhos se formassem. Não queria mais donas Anas espalhadas por aí. Mal sabe o orgulho que aquelas mãos calejadas me dão.
Confesso que não saem da minha mente os socos e pontapés do pai do meu filho, quando soube que teria responsabilidade pela frente. Os vergões e arranhões passaram. Mas as feridas que ficaram por dentro, essas talvez nunca cicatrizem.
Minha gestação foi difícil, sabia que estaria sozinha nesta jornada e alonguei até o fim meu período de trabalho para ter mais tempo com meu filho.
Mas a parte boa é o pequeno, Gabriel, um anjo capaz de colocar para cima a vida nos momentos em que tudo parece não fazer sentido. E às vezes não faz mesmo. Veja só, a gente sofre para encontrar uma creche, principalmente uma que seja integral, porque não tem ninguém para ficar com nossas crianças. Sofre com a desigualdade no mercado de trabalho.
Com salário menor para fazer a mesma coisa do que o homem, sofre para mostrar que não chegamos a algum lugar por conta de beleza ou coisa assim e sim por nosso esforço e talento.
Às vezes penso que as coisas vão melhorar, mas aí vem um sujeito, esse presidente aí que foi eleito e já chamou mulher de vagabunda, e diz para a gente trabalhar ainda mais para se aposentar? Isso é um absurdo! Será que ele não sabe que as mulheres são as primeiras a serem demitidas em momentos de crise? Que muitos patrões perguntam se vamos engravidar quando nos entrevistam para uma vaga de emprego e que isso diminui nossas chances de contratação? Parece que ele não nasceu de uma gravidez! Como vamos conseguir contribuir por mais tempo para ter uma aposentadoria digna, se já está difícil cumprir o tempo agora?
Essa reforma aí não é do tipo daquela boa que a gente faz em casa para deixar mais bonita, mas daquele tipo em que os que mais trabalham pagam para que os privilegiados, como governantes e juízes, possam trabalhar pouco e ganhar muito.

Isso não é justo! Reforma da Previdência NÃO! Nenhum direito a menos!

Se essa história também é a sua, escreva para nós macrossetor.serviços@gmail.com. Vamos lutar juntas, porque unidas somos mais fortes!

Data e hora: 
26/03/2019 15:30 2019
Data: 
26/03/2019 2019